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quarta-feira, julho 29th, 2009 | Author: admin

Especialistas concordam que é possível produzir muito mais na Amazônia usando apenas as área já desmatadas, para estimular o desenvolvimento social e econômico na região, sem a necessidade de mais destruição.

Atualmente, a pecuária praticada na Amazônia é altamente extensiva: em geral, o boi fica solto em grandes pastos (a média é de menos de uma cabeça de gado por hectare) sem grandes preocupações, por exemplo, com a qualidade do capim.Tanto na criação de gado como na agricultura, a tendência de muitos produtores é usar um pedaço de terra por poucos anos - até que ele se esgote - e depois abrir mais espaço na mata ao invés de recuperar o terreno já utilizado.
“Já são mais de 700 mil quilômetros quadrados desmatados para a agropecuária, mas tudo é usado de maneira muito pouco eficiente”, diz o pesquisador Paulo Barreto, do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). “Como a terra ainda vale muito pouco na Amazônia, vale mais para os produtores destruir mais floresta do que recuperar o que já está sendo usado.”

Fertilidade
Ao contrário do que sugere a pujança da floresta, o solo amazônico é na verdade bem pobre. A natureza é tão exuberante na região porque a selva se alimenta de si mesma.Ou seja, as plantas e animais que morrem se transformam em humo, que fertiliza o solo e permite que a mata volte a crescer. Quando este ciclo é interrompido pela agropecuária, todos os nutrientes do solo acabam sugados em pouco anos e a terra se torna estéril e arenosa.É possível recuperar o terreno com grandes investimentos em fertilização e preparação da terra (fósforo é a principal deficiência do solo amazônico), mas este é um processo que exige grandes investimentos e planejamento de longo prazo.“A incerteza na questão fundiária é uma das principais causas da atividade predatória na Amazônia”, diz a diretora do programa Amazônia da ONG Conservação Internacional, Patrícia Baião. “É necessário que isso seja regularizado para que possamos cobrar dos potenciais produtores e investidores mais comprometimento com a manutenção da terra.”
“Existe uma desvalorização da terra porque a ilegalidade é muito barata”, acrescenta. “É mais fácil ocupar um outro pedaço do que se concentrar em um lote já aberto e ali trabalhar para recuperar a terra.”

Floresta

Outro aspecto considerado essencial por especialistas para manter a selva de pé é desenvolver maneiras de valorizar as atividades econômicas mais ligadas à propria floresta.Patricia Baião observa que a coleta de matéria-prima florestal - para as indústrias de cosméticos e medicamentos, por exemplo - é uma das atividades que se adequa bem às caracteríticas de populações locais e à preservação da natureza.“O modelo econômico a ser adotado na Amazônia precisa ser pensado especificamente para a Amazônia”, diz a ambientalista. “Existe uma desvalorização da terra porque a ilegalidade é muito barata e, por isso, é mais fácil ocupar um outro pedaço do que se concentrar em uma área.”Paulo Barreto diz que agregar valor aos produtos florestais é outra medida que pode gerar muitos ganhos com pouca devastação. “O manejo sustentável de madeira (retirar árvores com um planejamento e um ritmo que permitam a recomposição da floresta) já é um grande avanço, mas agregar valor aos produtos florestais é algo que poderia trazer mudanças ainda mais profundas”, afirma.
“Poderíamos, por exemplo, criar uma indústria de móveis que pudesse exportar a madeira já trabalhada e valendo muito mais. Isso teria uim impacto social muito positivo e aumentaria o valor econômico da floresta de pé.”

Reserva

O fazendeiro Mauro Lúcio Costa ainda mantém as áreas florestais intocadas em 80% de sua propriedade - de 4,5 mil hectares - na região de Paragominas, no sudeste do Pará. “Fazendo só pecuária, é muito difícil viabilizar o negócio usando apenas 20% da propriedade”, afirma o produtor. “Mas desde que comecei a trabalhar a terra aqui, oito anos atrás, acreditava que a floresta poderia ter muito valor no futuro.”Ele diz esperar que, com o aumento das preocupações com o meio ambiente, seja possível lucrar com a preservação por meio, por exemplo, da prestação dos chamados “serviços ambientais”.Um exemplo de serviço ambiental bastante em voga hoje em dia é o mercado internacional de emissões de carbono, em que países e indivíduos que mantenham florestas intactas poderão receber recursos como compensação por estarem mantendo de pé áreas de vegetação que mitiguem os efeitos das mudanças climáticas.
“Acho que o governo poderia também criar um mercado para que aquelas fazendas que preservam mais do que o exigido por lei possam vender esses créditos para quem têm áreas mais desmatadas”, sugere.

Produtividade

Também na pecuária, o fazendeiro diz que se preocupa em manter a fertilidade da terra - por meio de técnicas agropecuários modernas, períodos de descanso para o solo e rotação de culturas - para não ter que abrir novas áreas na mata.“É mais caro trabalhar assim, mas a produtividade também aumenta muito”, diz o fazendeiro. “Eu produzo uma média superior a 400 quilos de carne por ano por hectare. A média na Amazônia não passa de cem quilos por ano.”
Ele dá como exemplo o capim que seu gado come. “Utilizo na minha propriedade seis tipos de capim, o que traz várias vantagens. O solo não fica desgastado por apenas uma espécie e, se houver algum problema, como uma praga, em um deles, os outros continuam vicejando”, afirma.
Se a produtividade já é um problema entre os fazendeiros maiores, é uma dificuldade ainda maior para as pequenas propriedades, dos colonos da reforma agrária ou dos sem-terra que invadem fazendas na região. São, em geral, agricultores que não têm recursos próprios para investir, e reclamam de enormes dificuldades para conseguir crédito para investimentos por não terem a terra regularizada.
“Precisamos ter nossa terrinha certa para poder trabalhar sem medo”, diz a agricultora Cosma Lima. “Se o governo ajudar, facilitar para a gente conseguir máquinas e fertilizantes, vamos poder produzir muito mais e ajudar a manter a floresta de pé.”
A agricultora ocupou um lote em uma fazenda na cidade de Dom Eliseu e chegou a conseguir fazer seu cadastro para regularizar seu terreno dentro das regras do programa Terra Legal. Mas, depois, recebeu a notícia de que seu cadastro não seria aceito porque a terra que ela quer ocupar já está em nome de outra pessoa - uma situação bastante comum e difícil de ser resolvida em meio à desorganização fundiária da região.

BBC Brasil

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quarta-feira, julho 29th, 2009 | Author: admin

As chuvas na primeira quinzena de julho diminuíram não só o aproveitamento do tempo disponível para moagem de cana de açúcar na região Centro-Sul,  mas também o acúmulo do teor de açúcar na cana colhida. Os números efetivos da produção até meados de julho, as condições desfavoráveis à colheita na segunda quinzena do mês e a não-maturação da cana em níveis comparáveis aos da safra anterior – aspectos que devem se repetir na primeira quinzena de agosto – já permitem afirmar que as previsões iniciais para a safra 2009/10 não serão atingidas.
Na primeira quinzena de julho, os estados mais afetados pelas chuvas foram Mato Grosso do Sul e Paraná. Já nos estados de Goiás e Minas Gerais, as condições climáticas foram favoráveis à colheita. Nos demais estados, inclusive o de São Paulo, que responde por cerca de 60% de toda a cana colhida no país, o aproveitamento do tempo disponível para a colheita foi o mesmo observado na segunda quinzena de junho, e comportamento diferente nas várias regiões produtoras de cana no estado.
A quantidade de cana esmagada entre 1º e 15 de julho chegou aos 33,53 milhões de toneladas, 4,60% inferior ao volume registrado na mesma quinzena da safra anterior (2008/09). No acumulado, o volume total do início da safra até 15/07 atingiu 209,79 milhões de toneladas, superando o acumulado na safra anterior em 18,94%.
A já citada diminuição na quantidade de produtos obtidos por tonelada de cana na primeira quinzena de julho ocorreu, principalmente, devido à não-maturação da cana colhida. O índice da quinzena ficou em 135,73 quilos por tonelada de cana, 3,65% abaixo do registrado na mesma quinzena da safra anterior. Em termos de produtos finais, a redução no período foi de 8,09% e no acumulado da safra, a quantidade de produtos obtidos até 15/07 é de 125,86 quilos por tonelada, 1,16% inferior ao acumulado na safra anterior.
Das 23 novas unidades com início de atividades (primeira moagem) previsto para a safra 2009/2010, 10 já terão iniciado a moagem de cana até o final do mês de julho. Entre as unidades já existentes, 12 ainda não iniciaram a moagem na atual safra.
Na primeira quinzena de julho, 45,56% da cana de açúcar processada foi direcionada para a produção de açúcar, o que resultou em um volume de 1,975 milhão de toneladas durante a quinzena, 0,41 % acima do volume produzido na primeira quinzena de julho da safra anterior. No acumulado desde o início da safra 2009/10, o percentual de cana utilizada na produção de açúcar é de 42,3% do total colhido, para uma produção acumulada de 10,64 milhões de toneladas, 25,91% superior à produção acumulada até meados de julho da safra passada.
Mesmo que as unidades mistas procurem otimizar a produção de açúcar, dado o nível de preços praticados no mercado interno e externo, o contingente de matéria-prima destinada à produção de etanol é de 54,44%, portanto uma safra mais alcooleira que açucareira, com volume de 1,447 bilhão de litros, 13,93% inferior ao volume produzido na primeira quinzena de julho da safra 2008/09. No acumulado, a produção de etanol na safra 2009/10 é de 8,92 bilhões de litros, com 57,70% de toda a cana colhida até aqui direcionada à produção de etanol.
Detalhes sobre os volumes de açúcar e etanol destinados para os mercados interno e externo só serão compilados na atualização referente à segunda quinzena de julho, que estará disponível nos primeiros dias de agosto. Na comparação com a segunda quinze a de junho, as saídas de etanol para o mercado interno entre 1º e 15 de julho aumentaram em 3,2%.

Unica

quarta-feira, julho 29th, 2009 | Author: admin

Nippon Paper Chemicals Co. Ltd and Cosmo Oil Co. Ltd have conducted a feasibility study on biomass ethanol production since April 2008, which revealed challenges regarding second-generation biomass ethanol production using woody materials.
The companies will conduct research for two years with the University of Tokyo and Kyushu University, studying the efficient production of ethanol from woody biomass using the sulfite delignification process.
Aiming to resolve these issues, the two companies teamed up with to respond to a call for parties interested in undertaking the 2009 Leading-Edge Biomass Energy Technology Research and Development, one of the areas covered by the new energy technology research and development projects by the New Energy and Industrial Technology Development Organization (NEDO).
The estimated project cost is about 20 million yen per year (funded by subsidies).

quarta-feira, julho 29th, 2009 | Author: admin

The latest entrant in the biofuels sweepstakes takes the wraps off a solar-powered technology designed to transform C02 and sunlight into ethanol.
“We capture the energy of the sun into a solar converter,” says Bill Sims, CEO of Cambridge, Mass.-based Joule Biotechnologies. “Inside exists a solution of brackish or gray water, nutrients and highly engineered photosynthetic organisms that directly secrete biofuels. There’s no intermediary that has to be introduced or processed.”
So far, Joule’s “helioculture” technology has only produced ethanol in the lab. But, says Sims, “We’re moving the lab outside as we speak. We aren’t expecting any surprises.” The company, backed by Cambridge venture capital firm Flagship Ventures, plans to begin construction of a pilot production plant in early 2010.
Like Solazyme and other startups that aim to produce biofuels from such things as algae and wood chips, the advantage of Joule’s technology over corn ethanol is that it does not displace agricultural land used for food production.
“We wanted to find a way to make new classes of fuels that could be dropped into the existing infrastructure and not limited by arable land or crops,” says David Berry, a MIT-trained bioengineer and a Joule co-founder. “Algae is what we would like to think of as a classic feedstock biofuel. We are going directly from the sun to fuel production.”
Berry and Sims claim Joule can produce 20,000 gallons of “SolarEthanol” a year for every acre of photobioreactors it builds, all at a cost less than the equivalent of oil priced at $50 a barrel. They say the fuel contains 100 times the energy storage density of conventional batteries, making it a more efficient way of storing and transporting solar energy.
Joule will offer coal-fired power plants and other carbon emitters the opportunity to convert greenhouse gases into gas for transportation. But Sims and Berry said the company’s production plants won’t necessarily have to be located next to fossil fuel power stations.
“CO2 is available by rail, truck and pipeline, so we don’t feel particularly hampered,” says Sims, whose previous venture was a LED lighting company.
Joule isn’t the only company tapping the sun to produce green fuels. Stealth startup Sundrop of Pojoaque, N.M., last year signed a deal with solar power plant developer eSolar to use its heliostat field and power tower technology. The company, backed by marquee Silicon Valley VC firm Kleiner, Perkins, Caulfield & Byers, has remained close-mouthed about its plans. Sundrop CEO John Stevens would only tell me at the time that the startup “uses low-cost concentrated solar energy to drive renewable energy into fuels.”
Ethanol is just the first product Joule plans to produce. The company has bioengineered other organisms to create 10 chemicals and other fuels in the laboratory, according to Berry and Sims.
“Green chemicals” are expected to be a multi billion-dollar market, and startups like San Diego-based Genomatica have also created bioengineered organisms to produce petroleum-free industrial solvents. Earlier this year Genomatica announced it had made a microbe that ingests sugar and water and secretes methyl ethyl ketone, a solvent used in paint. The company designed the green solvent to be produced at defunct corn ethanol plants.
So far, the dozens of corn-free ethanol startups have produced more press releases than petroleum substitutes in any substantial volume. For their part, Joule executives say they expect to go into commercial production in the second quarter of 2010. “At that point we’d be ready to drive commercial relationships, partnerships and the like,” says Sims.

quarta-feira, julho 29th, 2009 | Author: admin

New Zealand algae-to-biofuel hopefuls Aquaflow Bionomics and Solray Energy have teamed up to see if they can overcome the challenges that have kept algal biofuels from commercial production to date. The partnership will combine Aquaflow’s methods of harvesting algae grown from wastewater streams and Solray’s process of turning that algae into fuel, the companies said.
Aquaflow’s system of growing algae in open ponds using the effluent in wastewater from sources like sewage plants, food processing facilities and dairy farms could help lower costs. That’s because algae helps clean wastewater, a service companies can be expected to pay for. Seattle startup Blue Marble Energy has a plan to grow algae to treat wastewater and then turn the algae into industrial chemicals, for example.
A similar concept is using the carbon emissions from power plants or factories to grow algae – the plan of, among others, the recently disbanded algae-to-biofuel pioneer GreenFuel Technologies, which is now seeking a buyer of its intellectual property (see Green Light post).
GreenFuel’s demise has brought up a key challenge facing would-be algae biofuel makers, however – how to cut the costs of actually getting the algae harvested and turned into fuel.
Using open ponds, rather than enclosed “bioreactors” as GreenFuel had done, could be more cost effective, according to the National Renewable Energy Laboratory’s Aquatic Species Program, one of the earliest research efforts into algae biofuels that ended in 1998.
On the other hand, proponents of closed systems for growing algae say they’ve found ways to surmount the challenges noted in that report
Startup Algenol says it’s gotten around the harvesting challenge with a process that allows for algae-made ethanol to be extracted without killing the algae. It’s building a test plant at a Dow Chemicals site in Texas.
Despite the challenges – or perhaps because of them – money continues to pour into algae-to-biofuel research and commercialization efforts.
Solazyme last month raised $57 million to push commercialization of its unusual process of growing algae in the dark and feeding it industrial and biomass byproducts.
Oil giant Exxon made a big splash earlier this month when it promised $300 million in a algae biofuel research partnership with J. Craig Venter’s Synthetic Genomics, as well as $300 more in in-house research.
As for Aquaflow, it already has a relationship with Honeywell company UOP to work on bio jet fuel, making it one of many algae biofuel developers working with aviation industry partners, such as Sapphire Energy, Solazyme, Inventure Chemical, PetroSun and Chevron.
In March 2008, Aquaflow said it was successfully harvesting algae and planned to commission a prototype biorefinery to turn the algae into fuel.
The announcement didn’t make clear if Aquaflow was continuing its own biorefinery work or switching efforts to Solray’s system.
Solray says it has come up with a way to convert all of the algae – not just the fatty acids that make up a portion of it – into an “Algae Crude” oil that can be processed into transportation fuel.
With several years of testing the process in a prototype plant, Solray – a joint venture of New Zealand companies Solvent Rescue, which reconstitutes used solvents, and Rayners, which makes high-pressure vessels and HVAC equipment – says it commissioned a larger-scale plant in July 2008, according to its Web site. Both Aquaflow and Solray have said they are seeking investment.

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quarta-feira, julho 29th, 2009 | Author: admin

Solix Biofuels Inc. said Thursday it has started the production of oil made from algae at its Coyote Gulch Demonstration Facility, with full-scale commercial operation set for late summer.
Solix, a Colorado State University startup company based in Fort Collins, has been working on techniques to produce renewable, biologically based fuels from microscopic algae organisms. “We are ready to prove to the world the viability of algae as an alternative to petroleum-based fuels,” Solix COO Rich Schoonover said in a statement.
Coyote Gulch is located on a two-acre site in the Durango area on land provided by the Southern Ute tribe.
Algal oil production began July 16, Solix said. It said Coyote Gulch is expected to produce the equivalent of 3,000 gallons per acre per year of algal oil by late 2009.
Solix, started in 2006 and financed by private equity, is an outgrowth of the U.S. Department of Energy’s Aquatic Species Program, launched in 1978 to research ways to produce biodiesel fuel from algae.
Others in the field include oil giant Chevron Corp. (NYSE: CVX), based in San Ramon, Calif., which signed a contract with Golden’s National Renewable Energy Laboratory (NREL) in November 2007 to pursue algae-based fuels.
Experts estimate the organisms can make as much as 8,000 to 10,000 gallons of oil per year per acre, compared to 50 or 60 gallons per year using soybeans, 20 gallons using corn, and 150 gallons using canola or rapeseeds.

quarta-feira, julho 29th, 2009 | Author: admin

O Painel Internacional de Especialistas em Megacidades, Vulnerabilidade e Mudança Climática Global, realizado recentemente na sede da Fapesp, em S.Paulo, resultou em uma avaliação preliminar que servirá para traçar, pela primeira vez, um mapa qualitativo das vulnerabilidades da Região Metropolitana de São Paulo frente aos efeitos do aquecimento global.
De acordo com um dos coordenadores do painel, o climatologista Carlos Afonso Nobre – do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) –, os resultados obtidos serão apresentados dentro de três meses e fornecerão elementos para um primeiro esboço dos mapas, que serão concluídos em 2010 com o objetivo de subsidiar políticas públicas de adaptação às mudanças climáticas.
Liderado pelo Inpe e pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o painel foi realizado na semana anterior no Rio de Janeiro. O objetivo, segundo Nobre, era mapear as principais vulnerabilidades nas duas maiores capitais brasileiras. Segundo o climatologista, uma das conclusões do painel é que mudanças climáticas deverão exacerbar as vulnerabilidades já existentes na Região Metropolitana de São Paulo, como aquelas relacionadas à chuva intensa, que gera inundações, congestionamentos, deslizamentos em encostas, enchentes, acidentes e doenças.
“As projeções são de episódios de chuvas de maior intensidade, ainda que o volume de chuvas não deva aumentar ao longo do ano. Teremos que nos preparar para um aumento dos problemas que já enfrentamos hoje com as chuvas de verão. Toda a cidade será afetada, mas nas favelas isso será mais dramático”, disse Nobre.
Ainda que o volume de chuva não vá ser muito alterado ao longo do ano, segundo Nobre, haverá mais veranicos e períodos de seca mais intensa, que terão impacto sobre o abastecimento de água da Grande São Paulo.
“Essa questão já é preocupante hoje e, no futuro, o planejamento do abastecimento de água terá que levar em consideração que as secas poderão ser mais intensas que as do presente, com uma população maior e, talvez, menos pobre, tendendo a consumir mais água”, declarou.
O painel concluiu também que, como acontece na maior parte das regiões do planeta, as populações mais pobres são mais vulneráveis aos fatores ambientais tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo. Outro padrão geral em todo o mundo – a relação entre vulnerabilidade e gênero – também foi observado nas duas metrópoles brasileiras.
“Nas grandes cidades dos países em desenvolvimento as populações mais pobres são as que estão em áreas de risco. No entanto, há também uma vulnerabilidade considerável da população de baixa renda que está fora dessas áreas. Como também era de se esperar, observamos que as mulheres são mais vulneráveis que os homens”, disse Nobre.
As ondas de calor deverão aumentar a demanda dos serviços de saúde, o que afetará em especial os idosos, segundo Nobre. “A exacerbação desse fenômeno também aumentará a demanda de infraestrutura, já que as pessoas deverão passar a usar cada vez mais o ar condicionado”, disse.
A diminuição das chuvas e da umidade relativa do ar durante o inverno deverá criar condições de inversão térmica em um nível crítico, segundo o cientista. Por outro lado, a insolação mais intensa aumentará as reações fotoquímicas com os poluentes dispersos na atmosfera.
“Se não houver uma redução das emissões de precursores de poluição, vamos ter episódios mais agudos de poluição do ar. Esses episódios aumentarão certamente o número de mortes relacionadas à poluição, que ocorrem em número não desprezível em São Paulo”, afirmou Nobre.

Possíveis adaptações

O diagnóstico preliminar feito pelo painel, segundo Nobre, será aperfeiçoado nos próximos meses e os cientistas procurarão identificar as áreas geográficas específicas onde algumas das vulnerabilidades poderão se manifestar de forma mais acentuadas.
“Para cada um desses fatores o painel de especialistas procurou elencar quais seriam as respostas possíveis em termos de ações de políticas públicas – o que chamamos de adaptação”, explicou.
O pesquisador afirmou que, no caso da poluição, por exemplo, a adaptação possível deverá passar pela redução drástica das emissões de poluentes. “Se o clima mudar como estamos prevendo, não se pode fazer muita coisa para diminuir a temperatura, ou aumentar a umidade. Mas podemos reduzir de forma dramática as emissões dos precursores de poluição – que, no caso de São Paulo, correspondem especialmente às emissões veiculares”, disse.
A diminuição das emissões veiculares, segundo ele, pode ser feita com combustíveis mais adequados, carros mais eficientes e o incentivo aos transportes de massa, com restrições ao número de automóveis. “São soluções já discutidas hoje, mas que se tornarão imprescindíveis”, declarou.
Em relação às ondas de calor, a adaptação mais plausível, segundo Nobre, seria a arborização. “Trata-se de uma prática que São Paulo perdeu com o tempo. Temos menos de 1% de área verde no centro da cidade. A arborização é uma medida muito simples e benéfica, mas que demanda uma mudança cultural importante”, declarou.
De acordo com Nobre, a cidade de São Paulo já é uma das mais impermeabilizadas do mundo, o que irá favorecer as enchentes e inundações. Esse problema, segundo ele, também admite adaptações. “Já há códigos de construção que tentam diminuir a impermeabilização. Isso se tornará ainda mais importante no futuro. Essa seria uma medida concreta de adaptação”, afirmou ele.
Quanto às populações pobres, será preciso especialmente impedir que elas se instalem em áreas de risco e, aos poucos, remover as famílias que já estão nessas áreas, segundo Nobre. “Outra medida, sem dúvida, é o desenvolvimento social, com a eliminação da pobreza”, afirmou.
Os cálculos de abastecimento de energia, de acordo com o diagnóstico dos cientistas, deverão de agora em diante levar em consideração não mais apenas o aumento da população e do consumo per capita, mas também as mudanças climáticas.
“Outro ponto importante é a questão da migração. Como as secas do semi-árido do Nordeste serão mais intensas nas próximas décadas, deverá haver grande número de refugiados. Grande parte dessas populações tem vínculos de parentesco em São Paulo, o que deverá gerar um intenso fluxo migratório, decorrente da intensificação da seca, para o qual São Paulo precisará estar preparada”, afirmou.

Diferenças entre SP e RJ

Segundo o cientista, há diferenças marcantes entre as vulnerabilidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. “A mais evidente é que São Paulo não está sujeita ao risco do aumento do nível do mar. As duas cidades têm muitas favelas, mas a capital fluminense tem um problema maior: cerca de um milhão de pessoas em favelas localizadas em baixadas – áreas sujeitas a inundações dos rios e do mar. São Paulo também tem favelas sujeitas a inundações, mas em número muito menor”, disse.
A poluição do ar, segundo Nobre, é um problema bem menor no Rio de Janeiro. “Os ventos, a circulação e a brisa marítima fazem com que não seja um problema agudo. E não é um problema de inverno”, disse. A capital fluminense tem muito mais vegetação que São Paulo, segundo ele. “São Paulo não tem mais áreas verdes consideráveis, exceto as áreas de mananciais da Serra da Cantareira e da represa Billings, na região metropolitana”, disse.
A questão da saúde e da poluição é muito mais aguda em São Paulo, segundo ele. As duas cidades têm vulnerabilidade de deslizamento de encostas. As vulnerabilidades de abastecimento de água e seca, além de ondas de calor, são maiores em São Paulo.
“O Rio de Janeiro é mais quente, mas o que faz a vulnerabilidade em relação à temperatura é a diferença em relação ao que se está acostumado – isto é, quando ocorre um aquecimento que sai da faixa do conforto térmico da pessoa. Por isso as ondas de calor poderão causar mais mortes em São Paulo”, explicou.

Transformações necessárias

Enfrentar os impactos das mudanças climáticas, com medidas de adaptação e mitigação das emissões de gases de efeito estufa, exigirá esforços em todos os setores: a academia precisará de um enfoque mais multidisciplinar, o governo deverá se sensibilizar para a urgência do tema e a sociedade terá que compreender a necessidade de uma profunda mudança cultural.
Segundo o coordenador do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais, Fábio Feldmann, a criação dos fóruns estaduais, em 2005, foi um avanço que permitiu aos estados uma maior articulação com as políticas municipais e federais. Ainda assim, prevalecem as dificuldades históricas na implantação de políticas nacionais relacionadas ao clima. “Há dificuldades dos governantes para compreender que o clima é um tema para hoje, não para daqui a 20 anos. No Ministério da Ciência e Tecnologia, por exemplo, a estrutura para trabalhar nesse tema é muito pequena, mantendo o mesmo número de pessoas há mais de 15 anos”, disse Feldmann.
Segundo ele, as principais propostas dos fóruns têm foco na elaboração de marcos regulatórios relacionados às mudanças climáticas em todos os níveis de governo. “Em São Paulo elaboramos uma política para criar um processo – ou seja, incluir na agenda governamental a obrigatoriedade de inventários e mapas de vulnerabilidades. Acreditamos que isso vá mobilizar a sociedade brasileira para um avanço concreto”, explicou.
Feldmann declarou que há grandes dificuldades políticas para o estabelecimento de metas de emissões de gases de efeito estufa. “O problema é que as metas são entendidas como punição e não como oportunidade de inovação tecnológica”, afirmou.
Outra dificuldade importante no Brasil, segundo Feldmann, é articular as políticas públicas de clima com políticas setoriais como as de transportes e saúde. Um exemplo disso, segundo ele, é a redução dramática do imposto sobre produtos industrializados (IPI) concedida pelo governo brasileiro, por causa da crise financeira. “Com essa redução do IPI teremos uma imensa frota renovada de caminhões. Mas perdemos a oportunidade de articular essa iniciativa com as políticas climáticas, já que essa renovação será feita com uma tecnologia atrasada do ponto de vista do padrão de emissões. O padrão do diesel comercializado no Brasil é muito ruim, comparável apenas a alguns países da África”, declarou.
Segundo Feldmann, a legislação não conseguirá, por si só, implantar as políticas de adaptação e mitigação. “Os dois avanços em políticas ambientais mais importantes que surgiram nos últimos anos foram o indicador de sustentabilidade ambiental da Bovespa e a decisão das redes de supermercados de só comprar carne com rastreabilidade, para evitar os produtos que devastem a Amazônia. Esses dois avanços não envolveram legislação”, disse.

Mudança cultural

O presidente da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), Fernando Rei, afirmou que propor medidas de adaptação e mitigação implica uma mudança cultural que, muitas vezes, é rechaçada pela sociedade.
“Muita gente acha que vai haver alguma revolução tecnológica que nos permitirá manter os atuais níveis de consumo. Há uma grande dificuldade da academia e dos órgãos ambientais para se confrontar com esse tipo de contrapropaganda”, disse Rei.
Para Rei, a resistência à mudança de hábitos por parte dos cidadãos indica que há uma tendência de transferir as responsabilidades ao poder público. “Embora a Constituição Cidadã já tenha completado 20 anos, seguimos construindo um projeto de nação no qual o cidadão tem muito poucos deveres. A Carta Magna, no entanto, destaca o compromisso da coletividade e do poder público na preservação da qualidade ambiental”, declarou.
Segundo Rei, é preciso também que a academia trate o problema do clima de forma mais multidisciplinar. “Nosso processo de ensino encaminha os alunos para um universo de certezas. Não geramos na academia alunos que trabalhem com dúvidas. A burocracia acadêmica dificulta a construção de um olhar científico multidisciplinar. No entanto, o tema da mudança climática é essencialmente multidisciplinar e, por isso, será preciso repensar a forma de se produzir conhecimento”, disse.
Rei afirmou que, em sua avaliação, as principais vulnerabilidades na Região Metropolitana de São Paulo dizem respeito à questão da saúde – com novos vetores de epidemias e qualidade da saúde pública – e ocupações em áreas sensíveis, especialmente em torno de mananciais.
“Para combater a ameaça que essas vulnerabilidades representam com a possível ocorrência de eventos extremos, será preciso discutir as políticas públicas. Mas temos perdido a oportunidade de fazer isso porque o mercado e a sociedade estão ainda muito ausentes do debate. Essa não pode ser uma discussão exclusiva da academia e do poder público”, declarou.

Agência Fapesp - Fábio de Castro

quarta-feira, julho 29th, 2009 | Author: admin

Programa Redução de Emissões do Desmatamento de Florestas já existe no Brasil
e pode ser incluído em acordo global sobre o clima

O Brasil é responsável por um dos únicos mecanismos de incentivo à manutenção de florestas naturais do mundo, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente. É o Fundo Amazônia, que recebe contribuições direcionadas à manutenção da floresta em pé. O governo da Noruega se comprometeu a doar cerca de US$ 1 bilhão e parte deste dinheiro (por volta de US$ 110 milhões) já está à disposição do Brasil. Para que os técnicos do governo federal e estadual e analistas do Ibama e ICMbio entendam melhor o mecanismo pelo qual esse tipo de incentivo funciona, o Ministério do Meio Ambiente promoveu, de 13 a 17 de julho, em Brasília, um curso sobre o tema.
As aulas trataram sobre Redd (Redução de Emissões do Desmatamento de Florestas, na sigla em inglês), com é chamada esse tipo de iniciativa voltada para o financiamento das ações de redução do desmatamento e degradação florestal. O Fundo Amazônia, que está dentro dessas iniciativas, é recente — foi criado em 2008 — e, segundo o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), responsável pela sua gestão, não houve nenhum apoio a ações de manutenção da Amazônia ainda. Apesar de estar no início, o projeto é importante para incentivar a inclusão da Redd no acordo internacional pós-Protocolo de Quioto, a ser fechado em dezembro numa cúpula em Copenhague (Dinamarca).
Os 30 alunos discutiram o que é Redd, as iniciativas do tipo já existentes no mundo (como o Fundo Amazônia) e a importância das florestas na mudança climática. Segundo o diretor de políticas de combate ao desmatamento do Ministério do Meio Ambiente, Mauro Pires, a ideia é que eles entendam o que é o mecanismo na prática. “[As pessoas têm] a sensação de que é um tema etéreo, e não é assim. O Brasil já está fazendo”.
O diretor diz ainda que o curso teve uma grande procura e o ministério estuda a possibilidade de promover outra edição para profissionais da área, além de um seminário semelhante voltado para a sociedade em geral.
Diferentemente de outros mecanismos internacionais para redução das emissões de gases de efeito estufa, se aprovada na reunião de Copenhague, a Redd pretende incentivar países em desenvolvimento a preservarem suas florestas. Pelo Protocolo de Quioto, estas nações não são obrigadas a reduzir suas emissões. O mesmo acordo prevê ainda que os países ricos podem, em vez de reduzir suas emissões, pagar pela redução em outros lugares através de créditos de carbono. Porém, Pires explica que o documento só prevê compensação pelo reflorestamento, não permite pagamento a países que mantenham as florestas naturais. “Pelo Protocolo de Quioto a gente poderia desmatar toda a nossa floresta e depois reflorestar”, diz.
Outro ponto destacado pelo diretor é o fato de que, pela Redd, os países que contribuírem com doações para a manutenção das florestas não poderão emitir mais gases de efeito estufa, como acontece hoje no mercado de carbono.
Já há um programa na ONU, o (UN-REDD), cujo objetivo é destinar verba a países da América Latina, África e Ásia para que promovam ações sustentáveis em regiões de floresta. O projeto é uma parceria entre PNUD, FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), e PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente).

Combate ao desmatamento terá US$ 18 mi para países tropicais
Verba da ONU será destinada a ações que visem diminuir a emissão de gases poluentes pela queima de florestas

Um programa da ONU, cujo objetivo é reduzir a emissão de gases do efeito estufa resultantes do desmatamento de florestas, destinará US$ 18 milhões para projetos em países da África, Ásia e América Latina, que buscam incentivar ações sustentáveis em comunidades de países tropicais.
A iniciativa é denominada UN-REDD (Programa da ONU para a Redução de Emissões do Desmatamento de Florestas, na sigla em inglês). É uma parceria entre PNUD, FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), e PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) e busca subsidiar um futuro acordo climático, que pode ser firmado na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, que acontecerá em dezembro, em Copenhague (capital da Dinamarca).
Os US$ 18 milhões serão usados na implementação de programas de manejo sustentável em áreas de floresta, que buscam trazer benefícios não apenas ambientais, mas econômicos para a população. As atividades desenvolvidas pelos países contemplados deverão incluir ainda programas de fiscalização do desmatamento e ações de fortalecimento de instituições nacionais ligadas ao meio ambiente. Tudo será desenvolvido por meio de consultas públicas a comunidades indígenas e a moradores das regiões beneficiadas.
Nove países já expressaram interesse formal em receber parte da verba do programa: Bolívia, República Democrática do Congo, Indonésia, Panamá, Papua Nova Guiné, Paraguai, Tanzânia, Vietnã e Zâmbia. Cinco desses países – Rep. Do Congo, Indonésia, Papua Nova Guiné, Tanzânia e Vietnã – já apresentaram suas estratégias nacionais para a implementação do programa durante a reunião inaugural da diretoria do projeto, no Panamá. “Este é um primeiro passo bastante significativo para o UN-REDD”, afirmou, durante o evento, Angela Cropper, secretária-geral assistente da ONU e diretora-executiva do PNUMA. “Estou emocionada em ver um grupo tão dedicado de países, grupos indígenas, membros da sociedade civil, doadores e membros da ONU se unirem para chegar a um consenso sobre a importância desse programa”.
O UN-REED foi lançado em setembro do ano passado e é uma resposta a um acordo firmado em 2007, na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, em Bali. Na ocasião, os países-membros se comprometeram a negociar instrumentos de continuidade da redução de emissão de gases do efeito estufa para depois de 2012 – quando vencem as metas de redução do Protocolo de Quioto. A iniciativa engloba, inclusive, incentivo financeiro para mitigar a mudança climática gerada pela devastação de florestas em países em desenvolvimento.
Entre 1990 e 2005, as taxas de desmatamento no mundo chegaram a 13 milhões de hectares – grande parte dessa devastação florestal está na região dos trópicos. A emissão de gases de efeito estufa por meio da derrubada e queima de árvores para agricultura e outras atividades econômicas correspondeu a 17% do total de emissões do mundo – a segunda maior fonte depois do setor de energia. Até 2100, clareiras em florestas tropicais poderão liberar de 87 a 130 gigatoneladas de carbono na atmosfera.

PNUD Brasil

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quarta-feira, julho 29th, 2009 | Author: admin

A esperança de conseguir financiamentos de bancos públicos e privados é um dos principais motivos para o interesse de pequenos e médios agricultores em legalizar a situação de posse de suas terras na Amazônia.
“Antes, a gente ainda conseguia algum dinheiro nos bancos com a papelada de posse em mãos. Mas, nos últimos anos, secou tudo e não estão mais liberando nenhum crédito para quem não tem título definitivo”, diz o agricultor Marusan Moreira, estabelecido no município de Rondon do Pará há 20 anos.
Ele tem cerca de 500 hectares, que pretende regularizar no programa Terra Legal. Moreira diz que precisa de crédito para colocar em ordem sua plantação de pimenta do reino ou iniciar alguma outra cultura.
“Alguns anos atrás, o banco estava oferecendo financiamento para plantar pimenta do reino porque estava valendo muito a pena. O quilo rendia R$ 10 porque houve um doença nas plantações da Ásia que aumentou muito a demanda”, conta.
“Os técnicos do banco disseram que isso era um ciclo que iria durar algum tempo, mas antes mesmo da minha primeira colheita, o preço já tinha caído pra R$ 3 o quilo e nunca mais subiu. Tive que vender meu gado pra custear a pimenta e hoje já não tem mais nem um nem o outro”, diz o agricultor, enquanto caminha entre os pimentais, que exibem os sinais da falta de cuidados e investimentos.

Sonho
A coordenadora do Programa Terra Legal nas regiões Sul e Sudeste do Pará, Magda Reis, confirma que, nas conversas com os agricultores, a questão do crédito costuma ser um dos motivos apontados com frequência para justificar o interesse na regularização.
“O grande sonho desses pequenos agricultores por aqui é ter o título da terra para poder acessar crédito e para ter certeza de que a terra vai ficar para os filhos deles”, diz.
No entanto, o pesquisador do Imazon, Paulo Barreto, observa que o acesso ao crédito para os pequenos agricultores é importante, mas que precisa vir junto com políticas que permitam o investimento destes recursos em atividades sustentáveis.
“O fato de as pessoas receberem as terras de graça ou a preço simbólico (no caso das propriedades de até quatro módulos fiscais), pode dar a falsa ideia de que a terra é barata na Amazônia, de que vale pouco. Aí, sem orientação e com dinheiro, a tendência pode ser desmatar ainda mais”, afirma.

BBC Brasil - Paulo Cabral

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quarta-feira, julho 29th, 2009 | Author: admin

O agricultor Graciliano Mota da Silva - mais conhecido em Rondon do Pará como “seu Rogaciano” - foi um dos pioneiros a chegar ao sudeste paraense, em 1971, no embalo dos programas de colonização da região promovidos pelo governo militar.
“Naquele tempo, a coisa era mesmo desmatar, a gente não tinha preocupação. Mas, hoje, já dá pra ver a falta que a mata faz”, diz Rogaciano. “Venta muito mais, o que atrapalha a plantação. Também cai mais raio na terra, e mata o gado.”
Nascido na Bahia há 85 anos, ele trabalhava em terra arrendada de índios no litoral sul de seu estado natal, antes de desbravar a Amazônia.
“Abri 20 tarefas de mata (um total de mais ou menos nove hectares, nessa antiga medida usada no Nordeste) para plantar cacau”, diz o agricultor. “Deu muito bem, mas tinha que dar uma parte da produção para os índios e não estava trabalhando minha própria terra.”
Na década de 50, o produtor baiano já ouvia falar da Amazônia como uma fronteira a ser descoberta. “Já naquela época, eu ouvia esse menino que foi presidente, Juscelino Kubitschek, dizendo que a gente tinha que ir para a Amazônia”, conta.
Rogaciano diz que achou a terra no Pará “muito rasa (plana), cheia de mata, boa para agricultura” e decidiu que ficaria na região de vez, acompanhado da mulher, dona Elza. Negociou com os índios na Bahia o que deveria receber pelas benfeitorias trabalhadas na terra e, com o dinheiro, comprou em 1971 um lote de quase 2,5 mil hectares “que tinha um título com data de 1913″.
“Essa cidade de Rondon era uma vilazinha de meia dúzia de casinhas de madeira para comprar umas necessidades. Andava com os burricos cheios de carga 50 quilômetros pra ir até a vila e voltar”, conta.

“Senhor dinheiro”
Hoje, é possível chegar de carro à casa de Rogaciano por uma estrada de terra muito boa para os padrões dos caminhos amazônicos. A eletricidade ainda não chegou: os postes param cerca de 20 quilômetros antes da terra dele. “Parece que até outubro (a eletricidade) chega”, afirma o agricultor.
Ao longo dos anos, foi vendendo pedaços de terra, tirando madeira, fazendo carvão e desmatando para plantar para subsistência e criar vacas leiteiras como negócio. Hoje, sobram a Rogaciano cerca de 500 hectares, mais ou menos a metade transformada em pasto - e a outra metade de mata nativa.
O agricultor diz que não quer desmatar mais nada na propriedade dele. E afirma acreditar que seja possível a Amazônia se desenvolver sem a necessidade de derrubar mais florestas para abrir espaço para pecuária e agricultura.
“Mas, para isso, precisamos do senhor dinheiro. Para produzir sem desmatar, precisamos de financiamentos pra trabalhar a terra direito, para recuperar a terra que já estiver desgastada”, reclama.
Rogaciano também lamenta ter que pagar ao governo pela terra que ocupa há mais de 35 anos. “Eu já comprei e paguei por esse terra uma vez. Tenho o papel de quando eu comprei e não tinha como saber, naquele tempo, se era um papel bom ou não”, afirma.
Apesar disso, o agricultor diz que entende as razões do governo de cobrar pelo uso de uma terra, que originalmente, era pública. “Nisso, o governo tem razão. Pelo menos estão dizendo que vão dar um prazo de 20 anos para a gente pagar. Aí, vai dar tempo da minha família se organizar para isso”, diz.
Rogaciano conta ter cadastrado sua propriedade no programa Terra Legal do governo para tentar obter um título definitivo para a terra. “Vai ser muito bom finalmente ter certeza de que a terrinha é minha mesmo”, conclui.

BBC Brasil - Paulo Cabral - Enviado especial a Rondon do Pará

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